Ultima IV: Quest of the Avatar (PC / Sega Master System)

Ultima IV - SMSMais uma análise a um jogo da série Ultima, uma das grandes pioneiras dos RPGs no geral, mas nos RPGs ocidentais em particular. O Ultima IV é um jogo bastante peculiar pois trata-se de uma jornada onde não existe nenhum vilão a querer dominar o mundo nem nenhum dragão a guardar uma princesa à espera de ser salva, mas sim uma viagem de renovação espiritual, onde o objectivo é tornar o jogador num Avatar, um herói que personifica as 8 virtudes e 3 princípios. Mas mais sobre isso nos parágrafos seguintes. Este artigo vai-se incidir principalmente para a versão PC, cuja eu possuo em formato digital, tanto como jogo standalone, oferecido a qualquer pessoa que crie conta no GoG, como em compilação com os Ultima V e VI que comprei numa das sales que o site lá vai fazendo de vez em quando. Fisicamente possuo a versão Master System, que se a memória não me falha foi comprada algures no início do milénio numa loja de videojogos já extinta na Maia, por 5€. Está “completo”, faltando-lhe um livrinho que sinceramente não sei se chegou a ser lançado juntamente com o jogo em Portugal. Este artigo irá-se incidir maioritariamente na versão PC, embora irei mencionar algumas referências à versão Master System assim que necessário.

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Jogo com caixa, manual, mapa do jogo e catálogo. Falta-lhe o livrinho que sinceramente nem sei se chegou a sair em PT.

Ultima IV é o primeiro jogo de uma nova era para a série Ultima: o legado do vilão Mondain está finalmente extinto, o outrora mundo de Sosaria teve modificações profundas à sua geologia e Lord British resolveu chamar-lhe de Britannia, unificando todos os povos sobre o seu poder. E ao fazê-lo incutiu uma série de 3 princípios e 8 virtudes, em todo o seu povo: os princípios da Verdade, Justiça e Coragem e as virtudes honestidade, compaixão, valentia, justiça, honra, espiritualidade, sacrifício e humildade. Mais uma vez nós encarnamos num aventureiro de um outro mundo que inadvertidamente encontra um portal para o mundo de Britannia onde teremos a possibilidade de participar em mais uma grande aventura. Desta vez não temos um feiticeiro malvado que quer dominar o mundo para derrotar, mas Lord British pretende que nos tornemos um paladino destes princípios e virtudes, de forma a tornar-nos num Avatar, um herói e exemplo a seguir por todo o seu povo. E isso acaba por mudar bastante as mecânicas de jogo: para nos tornarmos um Avatar em primeiro lugar teremos de viver de acordo com as virtudes e tomar as decisões certas para isso. Após nos tornarmos num Avatar lá teremos também de partir em busca do Codex of Ultimate Wisdom que está nos confins de uma dungeon complexa – esse será o nosso objectivo final.

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Os diálogos na versão pc são livres: podemos escrever o que quisermos e os NPCs reconhecem algumas palavras chave

Ao contrário dos Ultimas anteriores, começamos o jogo não a escolher raça, classe e afins ao distribuir os vários pontos de atributos, mas sim a responder uma série de perguntas que nos colocam com afinidades a algumas destas virtudes. Mediante as nossas respostas é que será escolhida a nossa classe. Depois para viver de acordo com cada virtude teremos de ter algum cuidado com as nossas acções. Matar criaturas não maldosas como animais selvagens conta negativamente para a compaixão, roubar ou matar guardas ou inocentes também não é muito abonatório, dar esmolas a pedintes aumenta a nossa compaixão, fugir de combates é prejudicial para a valentia, se dermos sangue nalgum “hospital” aumenta o nosso sacrifício e por aí fora. Até nos diálogos temos de tentar ser humildes e honestos. Os diálogos por si só também apresentam um interessante (embora primitivo) sistema de árvore. Ao meter conversa com qualquer pessoa, podemos perguntar-lhes o que quisermos, desde name, job e palavras chave com base nas suas respostas, como “rune”, “mantra” e afins. Isto porque para alcançar a “Avatarhood” em cada virtude não é só necessário ganhar pontos suficientes, mas descobrir o mantra e templo associados a essa virtude, para depois meditar e masterizar essa virtude. Para isso teremos de ir perguntando aos locais onde essas coisas estão e não só. Na versão Master System como seria de esperar este sistema de diálogos está mais simplificado e apenas podemos perguntar por coisas que já tinhamos ouvido falar antes.

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Já na versão Master System apenas podemos escolher para os diálogos uma série de termos que já tenhamos conhecido

Neste jogo vamos também poder recrutar uma série de companheiros especialistas em cada uma das outras virtudes (o jogador “nasce” sempre com afinidade a uma virtude em específico), resultando numa party que poderá ir até 8 personagens. E se por um lado nós somos sempre “julgados” pelas nossas acções, as restantes personagens não, portanto se quisermos fazer maroscas na mesma é melhor mandar os outros. Neste jogo também mudaram as magias: agora temos de comprar uma série de reagentes e com base em várias receitas podemos fabricar uma série de feitiços, mais uma grande razão para o habitual grinding para arranjar ouro para suportar tudo isto. De resto, tal como os outros jogos da série, para subir de nível teremos de falar com Lord British, que por sua vez também nos poderá curar. Outra coisa que foi mudada radicalmente com este jogo é a questão das dungeons. Elas ainda existem e são exploradas de forma a encontrar itens que nos permitam avançar na dungeon final. A diferença é que deixaram de ser inteiramente na primeira pessoa. Agora apenas os corredores são jogados na primeira pessoa, com as dungeons a terem também diversas salas. Essas salas já são jogadas numa perspectiva de overhead normal, visto quase sempre terem batalhas associadas e não só, como puzzles e imensas passagens secretas. Nos corredores em primeira pessoa é também possível ter encontros aleatórios com inimigos, com as batalhas mais uma vez a passarem para a perspectiva habitual. A versão Master System tem as dungeons todas com essa perspectiva overhead, embora a consola seja bem capaz de renderizar dungeons na primeira pessoa, como pode ser visto em Phantasy Star.

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As dungeons na primeira pessoa ainda têm um aspecto simples, mas ao menos já não são apenas arames.

Graficamente o jogo está mais detalhado que os anteriores, em especial a versão PC que agora já está naturalmente mais colorida, devido ao utilizarem o standard de vídeo EGA que permitia 16 cores, ao contrário do primitivo CGA das conversões anteriores. Era 1985, os IBM PC não eram propriamente máquinas de gaming ainda, até porque mais uma vez o jogo ficou sem música e os efeitos sonoros eram limitados aos “bips” da PC-Speaker. Placas como a Ad-lib ou soundblaster ainda eram uma miragem. Felizmente a conversão para a Master System, tendo saído bem mais tarde acabou por herdar uns gráficos bem mais coloridos e música, mas ainda com sprites bem próximas das originais, ao contrário da conversão para a NES que foi mutilada em imensos aspectos.

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Este Ultima tem uma introdução bastante longa e colorida, em todas as versões

No final de contas Ultima IV é um jogo bastante peculiar na série, precisamente por todo este foco numa “quest” de introspecção e espiritual. É também o jogo que marca o nascer de uma nova era para Lord British e o mundo de Britannia, com imensas caras conhecidas e cidades que vamos ver evoluindo ao longo dos próximos jogos da série. Não deixa de ter uma jogabilidade ainda algo primitiva, afinal o jogo foi lançado originalmente em 1985, mas tenho visto uma evolução muito interessante desde o primeiro jogo. A versão Master System parece-me ser também uma excelente conversão, embora para quem estiver habituado a jogar os habituais JRPGs que as consolas sempre tiveram, não vão gostar lá muito do jogo.

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Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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2 respostas a Ultima IV: Quest of the Avatar (PC / Sega Master System)

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