Cryostasis (PC)

Cryostasis

Há por aí uma série de estúdios da Europa de Leste que têm feito imensos jogos com bastantes competências técnicas e que têm passado despercebidos ao lado de muita gente. CD Projekt RED com os seus The Witcher, GSC Gameworld e os seus S.T.A.L.K.E.R, ou algumas subsidiárias da Crytek são estúdios já com algum reconhecimento. Mas existem muitos outros por aí, e o exemplo que trago hoje é um FPS do estúdio Action Forms que já tem provas dadas neste campo. Cryostasis é um jogo com uma forte componente no terror psicológico, mas no entanto teve uma execução algo pobre, pelo que tenha passado um pouco despercebido por aí. A minha cópia digital chegou-me ao steam por intermédio de alguém que já tinha o jogo por alturas em que o mesmo saiu num indie bundle qualquer. Edit: Algures no verão de 2016 encontrei a versão física

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Jogo com caixa e manual

A história de Cryostasis é algo confusa. Passa-se durante o ano de 1981, onde encarnamos num meteorologista que se encontra a caminho de um navio nuclear soviético, cujo está preso num glaciar no Árctico desde 1968. Após uma chegada atribulada, descobre o navio completamente deserto e em ruínas, com os seus antigos ocupantes bastante agressivos e mutados aparentemente pela radiação nuclear a que foram expostos. O jogo tem uma forte conotação psicológica, na medida em que ao longo do seu progresso, vamos encontrando diversos flashbacks que narram a tragédia, bem como podemos entrar na mente de algumas vítimas e viver as suas últimas experiências – mais detalhes disto para a frente. Ao mesmo tempo, existe um paralelismo entre os acontecimentos no navio com os de um conto do escritor russo Maxim Gorky – The Flaming Heart of Danko, cujo vai sendo contado através de papéis que vamos encontrando espalhados pelo navio.

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A Mosin Nagant é a primeira arma de fogo que encontramos. Certifiquem-se que todos os tiros são certeiros, pois a arma é muito lenta.

A jogabilidade é algo diferente de um FPS normal, sendo isso que demarca Cryostasis dos demais. Infelizmente tem algumas falhas. Em primeiro lugar, o jogo é passado inteiramente no Árctico, portanto o conceito de frio está sempre presente. O indicador de vida sofre com a exposição prolongada ao frio (para além do dano infligido pelos inimigos), cuja pode ser regenerada ao interagir com objectos quentes, sejam luzes acesas, canos de vapor de água, geradores eléctricos, entre outros. Depois, passo a redundância, mas Cryostasis é mesmo um jogo frio. Isto pois a personagem move-se muito lentamente, assim como o próprio combate, sejam com armas melee ou armas de fogo. É possível fazer-se sprint, mas apenas por um curto intervalo de tempo, e a movimentação da personagem não fica assim tão mais rápida que o normal. Quando não se está a correr, o indicador de stamina vai regenerando ao longo do tempo, mas de forma lenta. Quando nos encontramos num ponto de calor onde podemos regenerar vida, o indicador de stamina também regenera rapidamente.

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Aqui o mecanismo de regeneração de vida pelo calor

Depois os combates. Existem várias armas melee, desde uma corrente, passando por uma válvula e um machado. As duas primeiras têm um mecanismo de combate algo parecido ao de pugilismo, onde podemos defender, e escolher quais os braços utilizar para atacar. É possível também fazer-se combos, mas a sua implementação pareceu-me bastante confusa. O machado é o mais poderoso, mas também o mais lento, exigindo ao jogador uma maior perícia para se desviar dos ataques inimigos e não falhar o seu golpe. As armas de fogo, todas elas soviéticas do tempo da 2a guerra mundial, são igualmente lentas. Para quem estiver habituado a shooters como Medal of Honor ou Call of Duty aqui vai ter uma maior dificuldade. É que para além do seu uso ser mais lento, e consequentemente mais realista, não existe no ecrã nenhuma mira, forçando o jogador a utilizar as ironsights se quiser acertar no alvo. E mesmo assim não é 100% certo que os tiros sejam certeiros, até porque os inimigos têm muito mais agilidade que nós. Existe também uma pistola de água (vulgo mangueira) que podemos utilizar para congelar os inimigos. Para um deles em especial, é mesmo bastante útil. Mas ainda falta referir um aspecto importante na jogabilidade, o facto de podermos entrar na mente de algumas vítimas. Para além dos flashbacks que vamos experienciando, por vezes encontramos no nosso caminho algumas vítimas congeladas, mas com algum batimento cardíaco. Não sei de onde vem esse poder especial da nossa personagem, mas é possível encarnarmos na mente das vítimas e experienciar os seus momentos que levaram à sua morte. Se conseguirmos mudar o seu destino, salvando-as, os seus corpos desaparecem, abrindo-nos o caminho para prosseguir. Este foi o aspecto mais interessante do jogo na minha opinião, apresentando vários puzzles interessantes que teríamos de resolver. Noutras vezes também teríamos de andar aos tiros. De resto o jogo acaba por ser algo monótono, em que basicamente vamos progredindo no navio ao ligar geradores para destrancar certas portas, rinse and repeat.

Passando para a parte técnica, Cryostasis é um jogo bastante bonito para 2009, contudo muito mal optimizado. Isto pois o jogo parece ter sido desenvolvido com base nalgumas configurações bastante específicas de CPU e GPU, forçando a que mesmo em máquinas mais recentes e supostamente com configurações suficientes para ter um bom desempenho, os gráficos tenham de ser reduzidos a um nível médio. Tentei jogar em 1080p, quase que me parecia um slideshow. O facto de o jogo ser pesado deve-se a vários factores, como os efeitos gráficos que envolvam gelo que são uma presença constante, bem as sombras, que me pareceram muito boas, ou a física que consome imensos recursos. Posto isto, e downgrades à parte, Cryostasis peca pela repetição de cenários. Todo o jogo é passado num navio abandonado. Embora visitamos diferentes secções desde salas de máquinas, enfermaria, refeitórios, cadeia, quartos dos oficiais até ao próprio reactor nuclear, o ambiente é sempre o mesmo, o que acaba por cansar o jogador. Principalmente com uma movimentação e combate bastante pesados também. A nível de som nada a apontar. A banda sonora é practicamente inexistente, já o voice-acting parece-me ser competente.

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As vítimas cuja mente podemos invadir têm o coração vermelho brilhante e palpitante, como este jovem aqui deitado.

Concluindo, consigo perceber bem o porquê de Cryostasis ter passado ao lado de muita gente. Possui algumas mecânicas de jogo muito interessantes e com imenso potencial, bem como alguns puzzles inteligentes lá metidos pelo meio. Peca pelos problemas técnicos que referi, pelo facto da jogabilidade em si ser demasiado lenta, e a monotonia que nos é trazida pelos cenários e pelo progresso no jogo. Para além do mais, o boss final é completamente WTF, mas deixo isso à vossa descoberta.

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Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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4 respostas a Cryostasis (PC)

  1. Na altura em que isto saiu pareceu-me o irmão mais pobre do Bioshock mas nunca cheguei a jogá-lo. Os requisitos de hardware altos também não ajudavam muito 😛 Mas realmente parece ser interessante, e agora fiquei mesmo curioso com essa do boss final.

    • cyberquake diz:

      Eu nunca tinha ouvido falar sequer do jogo até há uns meses atrás. O boss final se calhar até faz um bocadinho de sentido, mas não deixa de ser completamente surpreendente a sua inclusão, e ainda mais a maneira como o combatemos.

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